domingo, 27 de abril de 2014

TATOO

TATOO
®Lílian Maial




Nada mais importa,
senão o teu cheiro de macho
e o suor que nos pega e gruda e excita.
Não há lá fora,
só aqui, entre essas paredes latejantes,
por onde flui teu desejo,
onde se desmascara meu falso pejo,
e a outra toma forma devassa.
Não, não me desperta!
Deixa esse peso por sobre minhas carnes,
essa água benta a me escorrer em brasa
e a tua mão convenientemente esquecida no meu seio.
Permite que eu seja teu veludo,
desliza a boca nas vestes que são tuas.
Nada mais importa,
senão tua pele
a me tatuar as vontades
e as entranhas.


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​DE GAIOLAS & GRADES

DE GAIOLAS & GRADES
®Lílian Maial





Descobri que depois de tanto brigar com as gaiolas, não voei.
Asas pesadas, talvez dormentes da mesma posição, quebradas de grades.
Ou apenas acostumadas ao cativeiro. Não sei.
A liberdade parece mais distante com as portas abertas.
Destinos mais hostis.
Destino - palavra premeditada - só se escreve tarde demais.
Costumava achar engraçado e excitante esse voo cego,
não saber de nada até que foi.
Brincava de deixar para amanhã, quando tivesse tempo.
Agora entendo a alegria
e rio muito dos planos todos de todo mundo.

Gosto de ver o amarelo da flor da varanda.
Embora livre, vive apenas presa ao galho.
Ela me passa a ideia de destino, exposta e admirada,
finita e não menos cheirosa.
Cumpre sua função, eu cumpro a minha.

Aprendi que os ídolos fazem os tolos,
E que os tolos fazem ídolos por necessidade,
por medo da morte.
Não temo, não tramo e não faço tratos.
Tudo acaba, não tenho dúvida, e não seria diferente.
Como as flores, aceito a missão,


alada, finita e perfumada.

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sábado, 26 de abril de 2014

PERSONA

PERSONA
Lílian Maial




Não sei bem se felicidade é estar junto
ou antecipar a chegada,
se a partida dói mais que a previsão da ausência,
se eu te quero para sempre ou somente agora.
Odeio tantas coisas em ti,
que não sei como encontrar verdade em te amar.
Talvez eu ame a ira que me inspiras,
ou a poesia que tua espera me acalanta.
Mas esse teu silêncio, sem dúvida, me agride.
Então, como as conchas, produzo uma pérola,
no lugar em que deveria pulsar uma cicatriz,
e sigo o animus, sorrindo sempre,
porque, numa dessas, desprevenida e cética,
talvez ele me chegue.

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domingo, 6 de abril de 2014

HOMEM SEM ROSTO


HOMEM SEM ROSTO
Lílian Maial





Não sei teu rosto, então, te invento assim: 
És como o sol, um deus, tão importante! 
Mas vem a lua e banha o teu semblante, 
E esse importante deus inventa a mim. 


Eu me perfumo em versos de alecrim, 
E sinto um gosto ardente e atordoante. 
Vem do teu corpo o cheiro embriagante, 
Que saboreio em notas de jasmim. 


Teus braços fortes vêm ao meu redor, 
A tua boca eu quero e sei de cor, 
Mordendo as rimas, lábios de profeta! 


As coxas rijas são o meu sustento, 
O pão, a carne, o vinho, o meu ungüento. 
Não sei teu rosto, então, amo o poeta! 


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ALZHEIMER


TRANSFUSÃO