quinta-feira, 22 de agosto de 2013

LÍNGUA PORTUGUESA

LÍNGUA PORTUGUESA
®Lílian Maial





Tudo começou quando lhe disseram que a língua não cabia dentro da boca, que era uma língua de trapo. Aquilo virou obsessão, entre o fascínio e a vergonha. Tinha uma língua enorme, que batia no queixo. Fazia caretas inimagináveis, fazia música com a língua, provocava. Nas festinhas, exultava se ganhasse uma língua de sogra. Ainda criança, gostava de brincar de falar a língua do “pê”.

Um dia começou a lamber e não parou mais. Lambia os beiços, lambia a borda do prato, a borda dos copos, lambia os lábios. Era mestre em lamber. E adorava língua de gato! Desde que começou a lamber a pele, nunca mais teve sossego. Havia filas de tudo que é tipo de gente. Todos queriam ver a língua, sentir a língua, beijá-la. Depois que casou, passava horas lambendo a cria.

Resolveu estudar línguas. Fez inglês, francês, espanhol, alemão e italiano. Era muito simples, dominava a língua como ninguém. Ocupava alto posto na diplomacia, graças à lábia e às línguas.

Tudo ia bem, até que passou a não falar a mesma língua. As más línguas mandaram que dobrasse a língua, mas não era de seu feitio engolir a língua. Tinha tudo sempre na ponta da língua. Deu com a língua nos dentes. Morreu com a língua de fora.


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sábado, 10 de agosto de 2013

COMO EU





COMO EU 
lílian maial




Meus sonhos mudos 
não têm mais vozes 
silentes goles 
de devaneios 
carícias plenas 

gotas serenas 

correm na pele 
pelos meus seios.


Minha nudez? 
Ela é só minha
se não me enxergas 
pelas entranhas. 
Dona das manhas 
onça pintada
solta no mato 
boi de piranha.


Não queiras mágoa
a mim de estátua 
que na verdade
eu sou bem sonsa. 
Eu não sou santa 
e nem sou tola 
ou tua rola
apenas onça.


Cresci sabida, 
sem lei, nem guia 
nasci vadia
pra aproveitar. 
Sou hedonista
sou alpinista
herdeira artista 
do teu cantar.


Já fui cometa
arrastei lágrima 
na cauda inválida
já fui estrela. 
De parco brilho
saí dos trilhos
fui vaga-lume 
de outro planeta.


Hoje sou eu 
que não sou nada
menos que nada
eu sou talvez. 
E em minha saga 
apaixonada 
sou verme e praga
insensatez.


Sou céu e terra
sou mar e areia
aranha e teia
cobra coral. 
Se queres muito 
que eu seja tua
me prova crua 
sem mel, nem sal.

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